Histórias de Quintino Cunha

Quintino Cunha foi um advogado, escritor e poeta cearense, nascido na década de 1875, que deixou muitas histórias interessantes e engraçadas. Passava seu tempo livre nos cafés da Praça do Ferreira no centro de Fortaleza. Chegou a ser deputado que exerceu entre os anos de 1913 e 1914.

Nessa época apareceu um bode perambulando pela praça, que por vários dias se manteve nas redondezas lambendo os restos ou o “do santo” de cachaça nas calçadas ou nos pés de balcões. Como ninguém apareceu para reinvidicar a propriedade do animal, Quintino Cunha “adotou” e deu o nome de “Bode Ioiô” ao bode pelo fato do mesmo passar os dias indo e voltando.

Conta-se que:
Quintino Cunha, certa feita atuando como Advogado criminalista em uma causa difícil, tinha como adversário no jugamento, um colega que a todo momento, citava de cabeça os maiores juristas nacionais e estrangeiros, impressionando o júri e o juiz.
Então, Quintino começou a argumentar baseado nas teorias do nobre jurista Alberto Nepomuceno. E era Nepomuceno para cá, Nepomuceno para lá, citações belíssimas, profundas, tudo em prol de seu cliente.
Ao final do julgamento, causa ganha, o adversário vem cumprimentá-lo e pergunta:
– Dr Quintino, eu já estudei muito Direito, dou o braço a torcer, o senhor venceu. Mas apenas para satisfazer a minha curiosidade, quem é o jurista Alberto Nepomuceno?
E Quintino, com aquele jeito gozador dele diz:
– Eu também não conhecia, acabei de criar!
Na verdade, Quintino apenas criou o Maestro Alberto Nepomuceno como jurista, que ainda não era o grande mestre que se transformou, mas que já estudava música e era uma das pessoas que frequentava os cafés da Praça do Ferreira.

Consta que naquele primeiro quarto de século em Fortaleza existiam dois jornais de grande circulação. Quintino escrevia em um e outro jornalista, que se tornou seu desafeto por defender opiniões contrárias, escrevia noutro. Certa feita Quintino faz aniversário e os amigos providenciam uma festa surpresa para ele.

Logo depois dos parabéns quem entra na sala? Exatamente seu desafeto. E trazendo-lhe um presente nas mãos. Um grande pacote, com um papel bonito e um laço.
Entregou ao Quintino que ficou desconfiado. Para não fazer feio junto aos presentes, resolveu abrir o presente. Ao rasgar o papel, a surpresa: um par de chifres! E aquele bafáfá geral. Todos esperavam a reação de Quintino.
Ele não diz nada e simplesmente guarda o “presente”. Nos dias e meses subsequentes nem uma linha de Quintino sobre o episódio. Meses depois eis que acontece o aniversário do jornalista que deu o “presente”. E todos ficam esperando que o Quintino vá aprontar alguma. No dia, grande festa na sociedade fortalezense, a nata da sociedade é convidada, por óbvio Quintino não. Ao final da festa quem aparece na casa do aniversariante? Quintino com um presente de mesmo tamanho (e mesmo laço). Todos ficam apavorados. O que seria? Vai ter briga! Ele calmamente entraga o presente ao jornalista aniversariante que, com certo receio, vai abrindo o pacote. Tira o laço, rasga o lindo papel. E, para surpresa sua e de todos que ansiosamente esperam, encontra um lindo buquê de rosas! Ninguém entende nada, muito menos o aniversariante que esperava algo no mínimo igual ao que havia dado antes. E Quintino, na calma que lhe era peculiar, responde a todos:
– Só se pode dar aquilo que se tem!

Numa audiência em Fortaleza, um famoso hipnotizador era acusado de furto. A certa altura, disse este em sua defesa:
– Se eu quisesse podia fazer todos aqui dormirem!
Quintino Cunha, que acompanhava a audiência, interveio:
– Não é preciso, deixe isso a cargo do seu advogado!

Quintino Cunha fazia uma viagem de trem para Canús, mas no meio do caminho fez uma parada em Iguatú. Era o dia da inauguração do novo prédio do Foro. Alguns colegas, ao encontrarem Quintino na estação, convidaram-no para participar da solenidade.
Mal humorado, Quintino perguntou:
– Quem é o juiz?
– É o Doutor Fulano.
– Esse é burro! O promotor?
– Sicrano.
– Grande cavalgadura! E o advogado?
– Beltrano.
Desdenhoso, Quintino torceu o nariz e resmungou:
– Isso não é um Foro, é um desaforo!

Quintino conversava numa roda de amigos, quando se aproximou um pedinte estendendo as magras mãos a um e a outro. Ninguém deu atenção ao pobre. Quintino, tomado de piedade, procurou em todos os bolsos um níquel passando-o ao desgraçado.
– Deus lhe favoreça; vou suplicá a Nosso Senhô…
– Não! Não peça nada a Deus para mim! Peça para você mesmo…
Depois que se afastou o agradecido mendigo, ele esclareceu aos circunstantes:
– Se ele tivesse prestígio junto a Deus, não estaria nessas condições!

O CAVALO (De Quintino cunha)

– O mérito, em declínio, é sempre oriundo
De um suposto valor:
O Cavalo foi tudo, neste mundo,
Desde escravo a Senhor!

Na Arábia, foi herói; na Grécia, Trono;
Em Roma, Senador!
Hoje, no mais humílimo abandono,
Mal chega a ser Doutor!

BEABÁ SERTANEJO

Os paraenses, fazendo troça de um cacoete verbal dos cearenses, costumavam dizer que, pelo método de ensino do Ceará, o professor ensina assim:
B cum a, diz-que é bá; b cum é, diz-que é bé; b cum i, diz-que é bi; b cum ó, diz-que é bó ; b cum u, diz-que é bú: – diz-que é bá, diz-que é bé, diz-que é bi, diz-que é bó, diz-que é bú

OSNÓRIO DUQUE

Em 1909, foi adotada a letra de autoria de Osório Duque Estrada, para o Hino Nacional Brasileiro, causando enorme polêmica. Afora o fato de a maioria das pessoas não entenderem a significado de determinados termos, há frases cacofonias e afirmações duvidosas: “heróico brado”, “deitado eternamente”, “quem te adora a própria morte”…

Monteiro Lobato em critica à letra, disse que o Hino continha “maravilhosas mentiras sobre as nossas coisas. Mais estrelas tem o nosso céu – tolice astronômica. Mais flores têm os nossos campos – tolice botânica. Mais amores nossos corações – tolice sexual.”

Por essas e outras, Alberto Ramos publicou num jornal o seguinte:

Mestre Osório, o epigrama é coisa leve e alada,
Tu, pedante, o teu verso é giboso e massudo
Em pouco digo muito, em muito dizes nada
Se digo: Osório é um asno! Digo tudo.

Certa feita, Quintino foi convidade para as Bodas de Ouro de um conterrâneo, que iria festejar em sua fazenda no interior do Ceará. Quintino foi prontamente para o evento onde encontrou muitas outras pessoas conhecidas. A festa iria durar todo o final de semana.
Primeiro dia de festa, Quintino Cunha apesar de magricela, era conhecido como um bom garfo. Refrescos, salgadinhos e outros doces, porém comida de verdade mesmo, uma mincharia. Segundo dia e a mesma coisa. Quintino que dormira e acordara esfomeado, começou a se irritar.
À noite chegou e todos se ercolheram para dormir para o terceiro dia de festa. Quintino só esperou todos dormirem para voltar para a sua casa, deixando pregado na porta principal da casa o seguinte versinho.

Adeus casa da fome
Nunca mais verei tu
Criei ferrugem nos dentes
E teia de aranha no cu.

Em uma audiência, Quintino Cunha depois de concluir seu argumento final, senta-se em seu lugar ao lado do réu enquanto o promotor se prepara para iniciar o seu argumento, e acende um charuto. O promotor então inicia sua fala, mas todo o corpo de jurados e a público presente, ficam inertes de olho co charuto do Quintino que vai queimando e nada da cinza cair. Ao final do argumento do promotor, ninguém sequer ouviu nada e se ouviu de nada prestou atenção. Resultado: o réu foi inocentado. Conta-se que Quintino preparou o charuto em casa inserindo um arame no charuto para manter a cinza intácta.

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