Literatura de Cordel

Uma das culturas mais populares no nordeste brasileiro em especial no Ceará é a Literatura de Cordel. A origem da literário provém do século XII, mas chegou no Brasil em meados de 1750. Inicialmente, a divulgação dessa literatura se dava de forma oral, devido (?) ao número de analfabetos ser proporcional à quantidade de poetas talentosos. Depois passou a ser impressa em papel rudimentar em forma de xilografia, para ser comercializado nas feiras-livres das cidades do interior e na capital do estado. Normalmente “escanchados” em cordas nessas feiras. A partir do ano de 1450, com a invenção da imprensa, passou a ser difundida de forma mais trabalhada e em maiores quantidades.

A região cearense que mais produziu o cordel foi o Cariri, mais especificamente a região de Juazeiro do Norte e o Crato. Com o tempo foi se
espalhando pela descoberta de ótimos cordelistas em outras regiões e também na capital, Fortaleza, de onde a cultura cordelista saiu para se
aventurar na região da Catalunha na Espanha, onde passou a ser tema de mestrado nas universidades daquele país. Um dos responsáveis pela
importação do cordel para aquele país é o poeta Carlos Dantas, hoje professor de Literatura naquele país.

Um exemplo da expansão dessa arte para o mundo é o gênios do Cordel e da poesia em geral, Patativa do Assaré, que tem a sua obra como tema de
doutorado na Universidade de Sorbonne. Versos de Patativa do Assaré e outros poetas cearenses estão vivos no metrô de Paris. Versos foram
estampados nos vagões do metrô. Trechos retirados do livro “Poésie du Nordeste du Brésil” (2002) de Jean-Pierre Rousseau. Livro este com
somente poesia de nordestinos do Brasil. “Somente o rico na terra / Tem o seu nome na história / Quando o pobre vence a guerra,/ O rico alcança a vitória”. Estes versos de Patativa do Assaré foram lidos por milhares e milhares de franceses, enquanto se movimentavam por Paris, de metrô.

Em Fortaleza e em sua região metropolitana essa tradição já não é mais tão vista, mas ainda existem os que resistem, reunindo-se em associações, como a Sociedade dos Poetas e Escritores de Maracanaú (Sopoema) e a Associação de Escritores, Trovadores e Folheteiros do Estado do Ceará (Aestrofe). Em Maracanaú, região metropolitana de Fortaleza, o cordelista Francisco Melchiades Araujo, é um dos exemplos dessa resistência em não deixar o cordel morrer.

Melchiades parou de estudar na terceira série, mas com o “dom que Deus me deu”, segundo o poeta, conseguiu produzir mais de cinquenta obras
de cordel além de músicas. Os poetas geralmente se reunem e apresentam seus trabalhos em eventos do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Eles também se organizam para participar de concursos de poesia de cordel em outros estados do Brasil, onde Melchiades e outros cinco poetas
cearenses ganharam os cinco primeiros lugares no Segundo Concurso Paulista de Literatura de Cordel.

“Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.”

(De EU E O SERTÃO – Cante lá que eu canto Cá – Filosofia de um trovador nordestino – Ed.Vozes, Petrópolis, 1982)
Patativa do Assaré

Poema “Ai Se Sesse” do Poeta Zé da Luz.

Se um dia nós se gostasse
Se um dia nós se queresse
Se nos dois se empareasse
Se juntin nós dois vivesse
Se juntin nós dois morasse
Se juntin nós dois durmisse
Se juntin nós dois morresse
Se pro céu nos assubisse

Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu com eu insistisse pra que eu me aresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Talvez que nos dois ficasse
Talvez que nos dois caísse
E o céu furado arriasse e as virgem todas fugisse

As Misérias da Época – Leandro Gomes de Barros

Se eu soubesse que esse mundo
Estava tão corrompido
Eu tinha feito uma greve
Porém não tinha nascido
Minha mãe não me dizia
A queda da monarquia
Eu nasci, fui enganado
Pra viver neste mundo
Magro, trapilho, corcundo,
Além de tudo selado.

Assim mesmo meu avô
Quando eu pegava a chorar,
Ele dizia não chore
O tempo vai melhorar.
Eu de tolo acreditava
Por inocente esperava
Ainda me sentar num trono
Vovó para me distrair
Dizia tempo há de vir
Que dinheiro não tem dono.

Finalmente, esperamos que nós nordestinos, nós brasileiros e demais amantes da poesia em todas as partes, não deixemos essa artes morrer. São
os poemas mais completos pois unem rimas, estórias, humor e outras boas qualidades em uma única técnica.

VIVA O CORDEL

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