Tertúlia. Anos Dourados

Curso de Hambúrguer ArtesanalO mês não lembro (seria querer demais, né?), mas o ano era 1964, pois eu tinha 7 anos, comemorados em Fortaleza, onde estava com minha mãe para fazer exames com o oftalmologista.





Na verdade, o problema que me gerou o apelido de Sirilóia, não tinha nada a ver com saúde. Era uma mania de revirar os olhos para o céu o tempo todo.

O problema dos garotos daquele tempo, eram as irmãs e as tertúlias. Enquanto a meninada brincava na praça General Tibúrcio na correria pra lá e pra cá, eu tinha que estar na porta da casa do Sr, João Inácio (naquela noite) vigiando minha irmã na tertúlia.

Mas dos males os menores. Eu gostava da música. Enquanto o Luciano Pinho sentado em uma cadeira de balanço com um pé no chão e o outro na ponta da perna da cadeira, balançando conforme a música, eu curtia a música contando o balançado, tipo pra comparar as balançadas com o ritmo da música pra ver se combinavam. E não é que combinava com a puxada da guitarra? Ouça a música pra voltar no tempo…

A noite, como era normal naquele tempo, estava fria e molhada mesmo sem chuva. O orvalho do frio era tanto que deixava os bancos das praças molhadinhos por pequenas bolhas geladas.

A cidade não ficava às escuras ao anoitecer, mas as lâmpadas iluminadas pelo motor à díesel da usina, eram fracas e deixavam a cidade com uma iluminação amigável. Isto é, nem deixava a cidade às escuras, mas por outro lado, nos permitia ver as estrelas.

O que mata são as lembranças daquelas noites, com as praças cheias de jovens e as amplificadoras do Seu Juarez na praça de cima e a outra na praça de baixo tocando as músicas pedidas e oferecidas à alguém.

Meu Deus! Quantas saudades da minha querida cidadezinha sem televisão.

Quantas saudades daqueles tempos, onde as mães falavam em fim do mundo quanto ao que acontece hoje, ou seja: a mãe apoiando a filha a acampar no meio da rua debaixo de sol e chuva para esperar o show de um inglêsinho ridículo.

As músicas que as moças curtiam naqueles tempos eram tão puras quanto elas. Ouça A Banda de Chico Buarque e veja os vídeos do Festival… as moças se descabelando, chorando e cantando a música. E todas as músicas eram com letras bem definidas, sem segundas intensões nem duplo sentido. Como disse, puras como nossas moças. De família e bem criadas pelas mães responsáveis.
Boas mães, boas esposas e bem decididas. Não é à tôa que a primeira Desembargadora mulher do Ceará foi a Dra. Águida Passos, natural de Viçosa do Ceará. Ou seja! Quer estudar? Vai estudar. Quer ser “do lar”, será de primeira qualidade.

Quanta saudade da pureza. Da inocência da minha geração!

Aquela noite em especial, de 1964, naquela casa quase de esquina para a Praça Clóvis Beviláquoa, a vigiar a minha irmã na tertúlia em uma cidade onde todos se conheciam, foi especial e até hoje não sei porque. Mas vez por outra me pego pensando e lembrando dela. Falta só sentir o cheiro dos perfumes daquelas mocinhas e da brilhantina daqueles rapazes.

Todos hoje avós e com certeza cheios de saudades como eu. Porém, lembro da maioria dos rapazes e das moças que estavam naquela tertúlia, mas duvido que algum deles, sequer tenha notado a minha pequena presença.

Sequer minha irmã, pois eu lá me lembro com quem ela dançou ou deixou de dançar! Eu fui pra vigiá-la a não namorar com o Hélio, mas se tem uma pessoa que não me lembro de estar na tertúlia, era o Hélio.

…e agora me tocando da coisa, também não lembro da minha irmã também.

O que me lembro muito bem mesmo é da elegância, da música, da cortesia com que os rapazes pediam a dança à moça, das conversas…

E eu lá. Pequenino encostado no beiral da porta pelo lado de fora viajando! Só viajando.

Quanta saudade!

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Uma resposta para “Tertúlia. Anos Dourados”

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