ZÉ TATÁ

José Vicente de Carvalho, conhecido em Fortaleza como Zé Tatá, era um empresário possuidor de várias casas noturnas, como as pensões Ubirajara, Hollywood e Tabariz, que ficava na Rua Pessoa Anta, 120 onde mantinha música ao vivo e foi neste estabelecimento que Zé Tatá obteve o maior êxito no ramo, pela exuberância do local e pela grande frequência.

Zé Tatá era um homem negro com um metro e noventa de altura que adorava se vestir como mulher, porém não admitia a falta de respeito.
Ninguém jamais teria coragem de fazer qualquer comentário que ofendesse a moral e integridade de Zé Tatá.

Nascido em Sobral, Zé Tatá perdeu o pai aos 2 nos de idade e filho único de mãe viúva, foi criado em Fortaleza em um conjunto habitacional do
Exército do Brasileiro. Estudou no Colégio Marista, onde também ganhou o apelido de Tatá. Era anualmente a partir dos anos 50 a rainha do carnaval de rua de Fortaleza. Sempre nervoso desde criança, dizem que quando era repreendido pela professora, dizia:

– Tá! Tá! Vai virar o Zé Tatá.

Ainda adolescente, descobriu que era diferente, apesar de ser levado, brigão, namorador e bom lutador, jogava futebol e queria participar de tudo que envolvia contato físico com os garotos (claro). Quando estava om 19 anos, foi convidado para se fantasiar de mulher e sair em um grupo de amigos para desfilar no Carnaval do Centro de Fortaleza. Foi então que pela primeira vez se viu aquela mulher de dois metros de altura, pelos saltos altos, com maquiagem impecável. Foi o ia mais feliz para o Zé Tatá. Porém, ao chegar ao Centro, uma turma de machões bêbados resolveram brigar com a rapaziada.

– Vamos dar um pau nessas raparigas que não gosto de viado, gritou um deles.

Começou a briga. Zé Tatá, que vinha mais atrás, quando chegou mais perto e viu os amigos levando porradas dos bêbados, esquentou o sangue, deu um grito e partiu pra porrada. Eram mais de vinte cercando o Zé Tatá. O primeiro que chegou mais perto levou um chute na cara caindo semimorto com o sangue jorrando. Zé Tatá continuou com socos, pontapés, cabeçadas, pernadas… Quando a polícia chegou encontrou uma devastação de gente esfrangalhadas ao chão e o Zé Tatá ainda gritando e dando porrada em quem chegasse perto. Foi preciso uma força tarefa com mais de dez policiais para conter o Zé Tatá, que foi preso e autuado por agressão e perturbador da ordem pública. Sua mãe ficou muito triste com o episódio. Dizem que morreu duas semanas depois de enfarto por desgosto. Zé Tatá nunca mais falou sobre a morte da mãe, mas todos sabiam que ele se culpava.

No ato da prisão de Zé Tatá, o único que se manifestou a seu favor declarando a injustiça dos policiais e declarando que Zé Tatá foi um herói por ter salvo a vida de todos, foi seu amigo Raimundo. Este amigo, que no dia da soltura, estava lá na porta da cadeia para receber o amigo.
Conta-se que os dois saíram andando pela rua quando uma chuva começou a cair e, para se abrigar da chuva, os dois adentraram em um galpão abandonado. Conversa vai, conversa vem, e lá pra lá de tanta prosa, Raimundo resolveu investir um beijo de boca no amigo que aceitou prontamente e, dali pra frente declararam amor eterno.

Pois é. Raimundo mudou-se para a casa do Zé Tatá para o aumento das fofocas, porém, sem que ninguém arriscasse qualquer comentário e,  para acabar com as incertezas e dúvidas sobre o casamento do Zé Tatá com o Raimundo, Zé Tatá decidiu que passaria a usar somente roupas femininas para  aliviar as dúvidas e reforçar as certezas do casamento gay. Um escândalo para a época. Saiu até na imprensa, porém ninguém falava nada.
Zé Tatá levou sua vida e ao chegar nos lugares todos olhavam com admiração e respeito. Porém, muitas vezes foi preso por dar porrada em algum bêbado que, por desinformação ou maluquice, faltasse com o respeito.

Um belo dia, Zé Tatá e Raimundo foram surpreendidos com um caso inusitado. Alguém deixou à porta de sua casa um bebê em uma caixa aparentando poucos meses de idade. Uma menina. Os dois pegaram para criar como se fossem mães. Deram à criança o nome de Ísis. O aniversário de um ano da criança foi uma festa de arromba com a presença de todos os amigos e vizinhos.

Ísis foi criada pelos dois com o maior amor e cuidado. Estudou nos melhores colégios de Fortaleza. O tempo passou, Ísis cresceu e formou-se em medicina. “Era uma família atípica brasileira”.

Voltando às suas propriedades comerciais, a Boate Tambariz era a preferida do Zé Tatá que sempre abria as festas rodopiando no salão ao lado de uma dançarina bem representada no cabaré. As escolhidas eram sempre três chamadas Francisca que na falta, vinha a Das Dores ou a Clébia.
Era o suficiente para dentre pouco tempo o salão estar lotado dos presentes dançando os diversos ritmos apresentados pela orquestra.

Um fator interessante no que diz respeito aos clientes das casas do Zé Tatá, era o fato de quando esses clientes encontravam o Zé Tatá nas ruas, no Centro ou no Mercado Central onde ele fazia suas comprar, fazer que não o conhecia e, de repente só um cumprimento discreto com os olhos para não ser observado e, de repente comprometer a reputação do cliente.

Segundo o historiador grande Nirez, em 06 de dezembro de 1971, segundo determinação da Secretaria de Segurança Pública, todos os cabarés do centro de Fortaleza deveriam ser fechados.

A determinação começou pela Boate Fascinação que ficava à Rua Major Facundo, 152; depois a Boate Elite da Rua Floriano Peixoto, 225; a Boate Miami da Rua Major Facundo, 170; a Boate Emília da Rua Pedro Borges, 130 e finalmente a Boate Zé Tatá da Rua General Bezerril, 150.

No dia 09 de agosto de 1973, tem início a derrubada de antigos imóveis situados na Avenida Alberto Nepomuceno, no cruzamento om a Avenida da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, que fica ao lado da 10 Região Militar, para dar lugar às obras de construção do viaduto que ligará a Avenida Marechal Castelo Branco (Leste-Oste) à Rua Franco Rabelo.

Após a inauguração do viaduto que recebeu o nome de Viaduto da FEB (Avenida Alberto Nepomuceno esquina com a Rua José Avelino (antiga Rua Mesquita), mas que ficou conhecido popularmente como “Tatasão” em alusão ao vulto popular Zé Tatá.

Uma história interessante contada orgulhosamente pelos intelectuais da época nos cafés do centro de Fortaleza, é o fato que ocorreu quando chegou em Fortaleza um navio de marinheiros no Mucuripe e, os militares de folga, tomaram o centro da cidade bebendo e se divertindo nos bares e cabarés do centro.

Um certo marinheiro baiano era o mais exaltado tanto que, a festa dos marinheiros em cada estabelecimento só durava até esse baiano quebrar a casa e todos serem expulsos do local. Zé Tatá tomando umas e jogando conversa fora com os amigos em um barzinho do centro, quando alguém chega e grita:

– Corre Zé Tatá. Tem um marinheiro baiano que está quebrando todas as casas do centro e me disseram que ele está indo pra tua boate.

Zé Tatá levanta-se de um salto e parte para a sua casa comercial onde, chegando lá, o marinheiro já estava na introdução de suas façanhas. Zé Tatá então entra em ação e dá um corretivo de muito respeito no baiano que é atirado no meio da rua com hematomas por todo o corpo para admiração dos amedrontados colegas que o acolhem e partem para o Mucuripe sem antes ouvirem a orientação do Zé Tatá:

– Olhe! Quando tu chegar na Bahia e te perguntarem o que aconteceu, fala que tu apanhou de um baitola aqui no Ceará.

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